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Silenciar para sentir

A experiência do silêncio 

 

Uma pessoa muito especial me pediu para escrever sobre a experiência do silêncio (mauna) no retiro de meditação da UNA.

 

A palavra sânscrita “mauna” significa não apenas calar as palavras, mas uma abstinência completa de comunicação, seja verbal, gestual ou por meio de qualquer outro sinal (como um olhar, por exemplo).

 

Os yogis praticam o silêncio quando em meditação, mas, num retiro espiritual, o mauna ganha contornos muito particulares porque você está em grupo, dividindo o quarto com outras pessoas (muitas vezes, desconhecidas), partilhando as refeições e demais atividades. Cortar a comunicação nessas condições é um desafio ainda maior. 

 

Sentar e levantar da mesa, dividir o banheiro, chegar e sair dos ambientes sem trocar nem mesmo um olhar de cordialidade ou um sorriso com os outros parece quase impossível no início. 

 

Isso porque fomos treinados a ser educados, simpáticos e corteses o tempo inteiro. Fazemos isso em “modo automático”. E, quando as regras do jogo mudam, ficamos desconcertados, não sabemos como agir, o que “pode” e o que “não pode”. 

 

Você não tem que dar “bom dia”, pedir “licença” nem dizer “obrigado” a ninguém. Você não tem que se preocupar em agradar ninguém. No mauna a regra é uma só: quietude, recolhimento, introspecção. Cortar as distrações para observar as sensações.

 

E por que o silêncio incomoda tanto? 

 

Bom, tenho um palpite.

 

Primeiro porque não estamos acostumados com ele. O diferente gera desconforto por si só.

 

Mas, além disso, o silêncio nos obriga a olhar para dentro, a entrar em contato com sensações e emoções, que, muitas vezes, queremos evitar.

 

Que monstros habitam o silêncio? Medos escondidos, marcas do passado, dores sufocadas e – talvez o mais difícil de encarar – nossas próprias imperfeições. Entrar em contato com essas sombras assusta. Por isso a mente evita esse encontro o tempo inteiro, buscando distrações de todo tipo “do lado de fora”. 

 

Quando eu era criança, li um livro chamado “Barulhinhos do Silêncio”. Era a história de um menino que morria de medo dos barulhos da noite e corria para a cama da mãe em busca de abrigo. A mãe, cheia de amor, ia explicando ao filho o que eram aqueles barulhos todos e os medos do menino, aos poucos, se dissipavam: o trovão era parte da chuva, que molhava e nutria as plantas do quintal; o ruidoso som de motor do lado de fora vinha do caminhão de lixo, que passava para limpar as ruas de noite; e por aí afora. 

 

À medida que os medos eram desconstruídos, um a um, com a ajuda da mãe, o menino ficava cada vez mais confiante e conseguia dormir em paz na sua própria cama. 

 

Nossa mente funciona exatamente assim. Nos apressamos em julgar e classificar as coisas (e as pessoas) como “boas” ou “ruins” quase instantaneamente, sem refletir a respeito. E aí agimos no automático: isso é bom, então eu gosto/quero (apego); aquilo é ruim, então eu não gosto/não quero (aversão). A “cama da mãe” é um lugar seguro e gostoso (bom), então eu vou para lá me proteger do trovão que aterroriza minhas noites (ruim). 

 

A prática do silêncio (como a mãe amorosa da história) nos convida a jogar luz sobre nossas sombras e, com isso, desconstruir crenças enraizadas em nossas mentes, que nos afastam da verdade.

 

O trovão não é bom nem ruim. Ele é o que é. O barulho lá fora não era um monstro assustador, apenas o caminhão de lixo fazendo sua ronda noturna.  

 

Quando compreendo que as coisas (e as pessoas) podem não ser aquilo que minha mente julgou que fossem, assumo responsabilidade pelas minhas emoções, pelo que eu sinto. E essa compreensão me permite mudar a forma de ver e sentir o mundo. 

 

Se sinto medo do trovão, a culpa não é do trovão! O medo é fruto da minha mente, ou seja, é só um pensamento. Não é realidade. 

 

Dificuldade das maiores na prática do silencio é reconhecer nossas próprias imperfeições. Desde pequenos somos ensinados que precisamos ser “bons”. Essa crença faz com que a gente cresça jogando as características que a nossa mente classificou como “ruins” para “debaixo do tapete”. Ninguém nos ensina que sentir inveja, ter ciúmes ou se acovardar diante de algo, por exemplo, são propensões humanas. Todo mundo sente essas coisas vez ou outra. É normal. 

 

Mas, ao invés de aceitarmos nossa natureza, sufocamos tudo aquilo que não queremos ser e nos tornamos hipócritas, reféns do ego. 

 

Sentir inveja não faz de mim uma pessoa invejosa. Me acovardar diante de algo não faz de mim um covarde. Assim como praticar um ato de heroísmo não faz de mim um herói. Todas essas propensões, “boas” e “ruins” coexistem dentro de nós. Fazem parte da nossa natureza. 

 

E, no silêncio, tudo isso vem à tona. 

 

É aí que uma “mágica” acontece: quando me permito enxergar e aceitar minhas próprias imperfeições, eu consigo compreender as falhas e dificuldades do outro. Consigo perceber que o outro, assim como eu, quer ser aceito e amado, apesar dos seus defeitos. 

 

Ao entrar em contato com o meu “eu inferior”, aos poucos, vou me tornando uma pessoa mais generosa comigo mesma e, consequentemente, com o próximo. Nos tornamos mais tolerantes com o outro porque vemos nele a humanidade que existe em nós mesmos. 

 

Interessante notar que, durante a prática do mauna em retiro, embora a comunicação não seja permitida, nasce uma grande empatia e cumplicidade entre o grupo, porque fica claro que “cada pessoa está lutando a sua batalha interna que você desconhece”.  

 

É claro que nos conectamos mais com alguns e menos com outros (isso também é humano), mas, durante o retiro, brota dentro de nós – natural e espontaneamente – um amor universal. Experimentamos uma provinha do amor divino que habita todos nós e permeia todas as coisas. 

 

Ao final do retiro, nos sentimos inundados pela doce sensação de que somos capazes de amar e ser amados por “estranhos”, independentemente de crenças pessoais, religiões, profissões, classe social, etc., até porque sequer trocamos esse tipo de informação no tempo de convívio. 

 

Percebemos, então, que, para além das limitações do corpo e da mente, nosso verdadeiro EU é puro amor. E não poderia ser diferente porque nossa essência é divina. Logo, não há o que temer!

 

Por mais difícil que pareça a caminhada, não tem como dar errado.

 

Namaskar!

 

 

 

 

 

 

 

 

Fernanda Sousa (Prema)

Advogada de formação, 

Servidora Pública de profissão, 

Yogini de coração.

 

 

 

 

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