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A “Patricinha” e a “Hippie” – Um relato sobre a Meditação na minha vida

August 21, 2020

 

“Aquele que não enxerga, não sabe o que não vê. Porque, quando sabe o que não vê, de alguma forma, já está vendo.”

(Trecho da peça “A Alma Imoral”, de Clarice Niskier, baseada no livro homônimo, escrito pelo rabino Nilton Bonder)

 

 

A meditação entrou na minha vida em setembro de 2017, através do curso da UNA, elaborado e conduzido por Gunatiita e Taruna Deva. Era o início de uma grande revolução interna que provocaria mudanças profundas e irreversíveis.

 

Em maio daquele ano, sofri mais um aborto espontâneo. O terceiro em cinco anos tentando engravidar, sendo que dessa vez era uma gestação de trigêmeos e precisei me submeter a duas curetagens. Meu ex-marido e eu chegamos ao nosso limite. O sonho não era esse. Não era para ser assim!

 

Importante dizer, desde já, que essa não é uma história triste. É o relato de uma mulher que, cansada de nadar contra a correnteza, se entregou e fez as pazes com o universo.

 

Pois bem, até ali, havia seguido “a cartilha” direitinho. Sempre fui boa aluna, me formei em Direito (a carreira “mais promissora” das Ciências Humanas, diziam, mas que, na melhor das hipóteses, considero tolerável), fiz concurso público (justamente para poder ter tempo e tranquilidade para cuidar da família que tanto queria), tive a sorte de casar com uma pessoa brilhante, viajamos muito, compramos apartamento... Só faltavam os filhos. Não rolou. E agora? Seria possível uma vida plena e feliz sem a tão sonhada “família margarina”?

 

Estava em crise e era preciso reprogramar. Foi então que, finalmente, aceitei a sugestão de um amigo de fazer o curso de meditação da UNA.

 

Naquele momento, havia uma questão importante a ser resolvida dentro de mim: entender se ainda queria continuar tentando engravidar ou se, de fato, havia chegado ao limite nesse assunto. Desistir de um sonho? Parecia covardia. Mas estava exausta de viver numa montanha russa de emoções. Minha vida precisava seguir.

 

O mais difícil era entender porque não engravidava. A medicina não tinha explicação. Se houvesse uma causa de infertilidade diagnosticada, seríamos obrigados a virar a página. Mas não. Meu ex-marido e eu fomos aos melhores especialistas e, simplesmente, nunca encontraram justificativa razoável para a nossa dificuldade de gerar bebês.

 

Como espírita, sempre tive a certeza de que ninguém experimenta sofrimento algum por acaso. Isso me confortava do ponto de vista racional. Emocionalmente, porém, estava quebrada. Queria encontrar lógica naquilo tudo. Brigava com Deus, depois pedia desculpas e perguntava a Ele o que queria de mim. “Estou fazendo tudo certo”, pensava. “Temos saúde, tempo, condições financeiras. Por que não acontece? Nasci para ser mãe!”.

 

O tempo passava, as amigas engravidavam, algumas com muita facilidade outras com menos. Primeiro filho, segundo filho. Minha irmã caçula me deu duas afilhadas lindas, que amo como se tivessem nascido de mim, mas ainda queria “o meu” tão sonhado bebê. E nada.

 

Não suportava mais conviver com os amigos que tinham filhos, ir aos chás de bebê e festinhas de criança que pareciam acontecer todo final de semana. Sentia-me injustiçada pelo universo e, ao mesmo tempo, envergonhada por não conseguir ficar feliz quando recebia a notícia de uma nova gravidez.

 

Ao longo desses cinco anos de tentativas, engravidei três vezes: duas espontaneamente e uma (a última) após uma fertilização in vitro. As chances de se conseguir uma gestação numa FIV são baixas, então optamos por colocar dois embriões para aumentar nossa sorte. Deu “certo”: não só os dois embriões transferidos vingaram, como um deles se dividiu (por conta própria!) e originou um terceiro ser. Sim, estava grávida de TRIgêmeos!

 

Era uma gestação de altíssimo risco, sobretudo para uma mulher de 1,57 de altura e (quase) 44 quilos. Meu ex-marido, companheiro amoroso de mais de uma década, temia pela minha saúde. Não importava. Eu queria muito os três, como queria! Ali tudo fez sentido: aquele tempo todo Deus estava me preparando para encarar essa missão, claro! Ele ia me confiar a maternidade de três crianças ao mesmo tempo e eu estava pronta.  

 

Nada disso. Como nas gestações anteriores, a dos trigêmeos também não avançou muito. Logo o primeiro coraçãozinho parou de bater e, pouco tempo depois, os outros dois também. Foram necessárias duas curetagens. Cheguei ao fundo do poço.

 

Assim que minha médica me liberou, “fugimos” para uma temporada de quarenta dias na Espanha. Foi um break fundamental. Visitamos lugares lindos, voltamos à nossa tão amada Barcelona, conhecemos Menorca (paraíso que recarregou nossas energias) e a Andaluzia. Éramos uma dupla e tanto de viagens! Éramos uma dupla e tanto, ponto. E seríamos felizes com ou sem filhos. Tínhamos um ao outro, nossas preciosas famílias, amigos, saúde, nossa casa... Ele tinha certeza de que não queria mais tentar. Eu ainda tinha dúvidas.

 

Quando voltamos ao Rio, fui aprender a meditar em busca de paz e respostas para seguir em frente. Logo nas primeiras aulas do curso, fichas importantes começaram a cair. Meditar é aprender a viver no momento presente. Fácil na teoria, muito difícil na prática.

 

De cara, entendi que passamos boa parte da nossa existência em busca do que “tem que ser” e deixamos de viver a vida como ela se apresenta, como ela “é”. Não sabemos viver no agora. Ou bem estamos remoendo um passado que já foi ou tentando antecipar um futuro que ainda não existe. Até que uma “bendita crise” nos obriga a parar e olhar para dentro. O meditador é um observador do que “é”. Ele não quer nada além de observar seus pensamentos e emoções no momento presente.

 

A partir dessa compreensão inicial, comecei a praticar meditação com a pergunta “quero voltar às tentativas de engravidar hoje?”. A resposta vinha clara: “hoje, não”. Seria medo de tentar e sofrer novamente? Continuei meditando e observando. A resposta persistia: “hoje, não quero”.

 

Fiquei absolutamente fascinada com o curso e passei a praticar meditação com frequência, sozinha em casa (com grande dificuldade, no início) e nos encontros coletivos organizados pela minha “musa zen”, Gunatiita.

 

Queria avançar na prática, mas meu corpo era um obstáculo e tanto. Após dez minutos em postura de meditação, minhas pernas começavam a ficar muito dormentes e só conseguia pensar em esticá-las. Isso me irritava profundamente! Como poderia evoluir na arte de observar pensamentos se meu corpo não colaborava?

 

A Guna, minha doce professora, apenas sorria e dizia com sua voz suave e seu cativante sotaque hispânico: “É assim mismo. Tudo bom. Fica na dor. Um dia você não vai mais se importar com ela!”. Não conseguia imaginar como em algum momento aquela sensação absurdamente desconfortável não iria mais me incomodar, mas acreditava na Guna. Aquela mulher tinha conquistado uma paz e uma segurança que queria para mim. Por isso, insisti.

 

Após alguns meses de prática regular, aconteceu. Abri os olhos ao final de uma meditação coletiva na casa da Guna e percebi que ela me olhava com um sorriso no rosto. Finalmente, tinha conseguido meditar por quarenta minutos seguidos sem perceber as pernas dormentes e ela sabia disso.

 

Hoje vejo perfeitamente que aquele desespero todo com o desconforto físico era uma sabotagem da minha mente, que não queria focar naquilo que precisava. Nossa mente é assim mesmo, ela cria mecanismos para fugir do que não queremos enxergar.

 

Meditadores iniciantes enfrentam muitas dificuldades: o corpo reclama da postura, o barulho do ambiente incomoda, sonolência, coceira, fome, diálogos mentais que insistem em nos levar para o passado ou para o futuro... São artimanhas da mente humana.

 

Aprendi com a Guna que o primeiro passo é não brigar com esses obstáculos. Eles guardam informações preciosas sobre nós mesmos e devem ser permitidos e observados com atenção, sem julgamento. Se me sento para meditar e só consigo pensar que minha barriga está roncando de fome, tudo certo. É isso que vou observar: barriga roncando de fome.

 

Meditar é difícil. Não é relaxamento. Não é viajar para outro planeta e esquecer os problemas. Não é desligar a mente e não pensar em nada (aliás, isso é impossível). Meditar é a arte de ficar no presente e observar pensamentos. É uma ferramenta poderosíssima de autoconhecimento que demanda disciplina e muita coragem. Coragem para jogar luz nas sombras que nossa mente quer evitar a todo custo.

 

E, assim, seguia meditando, observando e escolhendo de acordo com o que fazia sentido no momento presente: “hoje, não...”. Já não me perguntava mais “por que não?”. Apenas escutava a voz da minha essência e, como a Guna sempre diz, “tudo bom”. Por ora, aquela resposta era suficiente e eu, de fato, estava bem.

 

Ao final das meditações guiadas, Guna costuma dizer: “Nossa meditação acaba aqui. O estado de presença, você mantém.”. Isso, realmente, acontece com o meditador. A gente leva esse olhar atento, curioso, sem julgamento, para o mundo e passa a perceber a vida, as coisas e as pessoas como elas são.

 

Se saio de casa para trabalhar e está chovendo, constato “está chovendo”. Procuro não sofrer por antecipação imaginando que vou chegar toda molhada, descabelada, atrasada, etc. É chuva o que tem para hoje? Tudo bem, observo a chuva.

 

Se uma pessoa me da uma resposta atravessada sem motivo, tento não engrenar numa discussão com ela. Observo que aquela pessoa não está num bom dia e simplesmente me afasto. Respiro antes de reagir. Um grande desafio para uma “baixinha abusada que adora ter razão”, porém, quando consigo colocar em prática sinto um orgulho enorme de mim mesma e concluo que sempre vale a pena. O que se passa na mente do outro, é do outro. Mas esse assunto merece um texto próprio.

 

Preciso dizer que, de início, esse “observar as coisas e as pessoas como elas são” me afetou de uma forma, aparentemente, negativa. Fatos que antes me passavam despercebidos começaram a incomodar muito. O mundo se tornou barulhento e eu, constantemente, irritada com tudo e com todos. Só encontrava paz na quietude da minha “ilha”.

 

Mudanças importantes estavam acontecendo dentro de mim, mas ainda não tinha consciência delas. Não sabia mais quem eu era. Apenas sentia que aquela Fernanda, impaciente e incomodada com tudo, precisava ser ouvida. Era uma fase, tinha certeza. E também sabia que precisava mergulhar cada vez mais fundo naquele processo de tomada de consciência. Seguia meditando, observando e confiando na fala da Guna: “tudo bom”.

 

Num determinado momento, me dei conta de que não apenas eu estava em crise, mas boa parte das pessoas que conhecia. Até mesmo os amigos que tinham conquistado a “família margarina”! Observava que a vida real era muito diferente das fotos profissionais dos ensaios de família constantemente postados nas mídias sociais.

 

Olha que loucura: o fato de não ter tido filhos me deu a oportunidade de observar as enormes dificuldades e desafios que os pais de crianças pequenas próximos a mim enfrentavam.

 

Foi aí que outros questionamentos começaram a surgir. Será mesmo que queria aquela realidade? Será mesmo que o sonho da família de comerciais era meu? Quantas das nossas escolhas são realmente motivadas pela vontade livre e consciente da nossa verdadeira essência?

 

Costumo dizer que duas personas muito diferentes sempre me habitaram: uma “patricinha” e uma “hippie”. A “patricinha” – uma princesa da Disney – queria ter uma profissão convencional, casar com um príncipe, morar na Zona Sul, ter três filhos e viver feliz para sempre numa bolha de segurança e estabilidade. A “hippie” – meu “avatar” alternativo – queria ser bailarina, morar em Santa Teresa, dançar forró na Lapa, escrever poesias e ter um filho bastardo de uma grande paixão.

 

Até aquele momento da minha vida, havia alimentado 100% a “patricinha”. A “hippie” estava faminta e me fazendo um monte de perguntas estranhas. Eu a tinha abandonado por completo e ela estava com raiva! Exigia “seu lugar ao sol”.

 

Eu achava...

Que precisava passar num concurso para ter segurança financeira

Que precisava casar para me sentir completa

E ter filhos para me sentir mais completa ainda

Que precisava de um apartamento próprio

“Meu” pedaço de chão

Que ilusão!

Que já tinha conhecido todas as pessoas mais importantes da minha vida

Que nunca ia querer mudar

Acho que não sei é de nada! Ainda bem.

(28.11.19)  

 

Estava diferente, cada vez mais diferente. E precisava desesperadamente entender quem era esse “novo” eu. A Fernanda que conhecia até então tinha muitas certezas, a nova tinha muitas perguntas.

 

O casamento foi a última das minhas certezas a cair. Por doze anos, fui muito feliz e completa no meu relacionamento. Nós éramos “perfeitos”. Não falo da perfeição estéril dos contos de fadas, mas da perfeição de quem tem a certeza de estar “no lugar certo”, apesar das dificuldades do dia-a-dia.

 

É um processo muito difícil e dolorido tomar consciência de que algo que você quis muito e achava que ia querer “para sempre” perdeu o sentido. Principalmente, quando não há nada errado, pelo menos não “a olho nu”. Trocar o certo pelo duvidoso é como pular num abismo. Parece loucura.

 

A Guna me ensinou que para as grandes questões da vida – ficar onde estou ou seguir um novo caminho? – só existe uma resposta. E é verdade. Só que essa resposta está lá no fundo do nosso ser. Ela se manifesta por um sentir, não por uma lógica racional.

 

Aprendi que as camadas mais superficiais da nossa mente (consciente e subconsciente) não são suficientes para nos dar a resposta que precisamos. Essas primeiras camadas vão manifestar infinitos argumentos favoráveis e contrários à dúvida que se apresenta. Todo caminho tem perdas e ganhos. O diálogo mental que se estabelece na mente consciente e subconsciente não resolve nada.

 

É preciso cessar os movimentos do corpo (“camada” mais externa do nosso ser) e mergulhar em direção às camadas mais profundas da mente. Lá no fundo do nosso interior, a resposta que buscamos aparece cristalina. Nossa essência sempre sabe o que fazer, sempre.

 

Uma alegoria me ajudou muito a entender como a meditação pode nos auxiliar a resolver questões importantes. O meditador senta na beira de um lago e observa. De início, ele não consegue ver o fundo. A água está agitada e turva porque um rebanho acabou de atravessar o lago. Ele continua observando atento. Pouco a pouco, a poeira vai decantando até que a água se torna transparente e é possível enxergar, sem dúvida alguma, o que existe no fundo do lago.

 

A história do meu casamento foi linda. Vou honrá-la e levá-la no meu coração para sempre (sim, alguns “para sempre” existem).

 

E, sim, continuo acreditando em relacionamentos que duram uma vida inteira. É possível, desde que o contrato seja constantemente renovado para abraçar as mudanças que, inevitavelmente, vão acontecer. A natureza humana é mutável. Brigar com isso é inútil e só gera sofrimento.

 

E a questão da maternidade? Bom, ela já não me atormenta mais.

 

Não quero mais fazer tratamentos para engravidar, isso é certo. Se tiver que acontecer um dia, acontecerá. Hoje, não me vejo mãe. Mas, não sei.

 

Compreendi que não temos controle sobre nada, ainda mais sobre o início e o fim da vida. Existe um movimento perfeito nesse universo maior que guarda muitos mistérios. Não adianta vivermos atormentados tentando desvendá-los. Precisamos lembrar que somos parte desse todo. Portanto, a música que está tocando é exatamente a música que precisamos aprender a dançar, gostemos ou não.

 

A doutrina espírita me ensinou que nada é por acaso. A meditação me ensinou a relaxar, permitir e apreciar a vida que se apresenta na certeza de que está tudo bem.

 

Por cinco anos da minha vida, busquei uma gravidez que não acontecia (sem qualquer explicação médica razoável). Era como nadar contra a correnteza de um rio. Quando estava à beira do afogamento de tanto cansaço e desespero, me entreguei e permiti que meu corpo boiasse na água. Quando você se permite levar, o rio da vida te conduz naturalmente para o lugar certo. 

 

Esse “boiar” não significa ficar inerte nem desistir, mas se colocar aberto e disponível para a vida como ela é, e não como achamos que ela “tem que ser”. É se pôr em movimento, porém, abrindo mão do controle sobre o que acontece no mundo exterior. É confiar e se entregar de coração, sem medo, a essa ordem maior que rege e integra todas as coisas.

 

Hoje minhas questões são outras. Sempre haverá novas questões. Sigo minha vida em paz, observando e escolhendo de acordo com o que faz sentido no momento presente. Não sou mais a “patricinha” nem a “hippie”. Sou ambas e muito mais. Reverencio meu passado e, quanto ao futuro, “eu não sei”. E “tudo bem”!

 

Termino esse relato com um trecho do livro “A Coragem de Ser Imperfeito” (título original: “Daring Greatly”), da socióloga americana Brené Brown, que foi traduzido assim: “Abrir mão de nossas emoções por medo de que o custo seja muito alto significa nos afastarmos da única coisa que dá sentido e significado à vida.”.

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